Publicado em 09/05/2026 às 13:01
No final dos anos 1990, Bogotá criou o Pico y Placa: um rodízio veicular nos horários de pico, semelhante ao modelo paulistano, e tendo como base o último dígito da placa. A adoção da medida buscava diminuir o congestionamento e a poluição. Duas décadas depois, o programa se reinventou, passando a funcionar como um sofisticado mecanismo de precificação do uso das vias públicas que hoje ajuda a financiar o transporte coletivo da capital colombiana, além de continuar impactando os níveis de congestão e emissão de poluentes.
Fonte: Prefeitura de Bogotá
O gatilho para a mudança
O modelo original de rodízio teve seu calcanhar de Aquiles exposto quando as famílias de maior renda passaram a comprar um segundo carro com placa de final diferente para burlar a restrição. E a esse movimento o governo reagiu com a introdução do Pico y Placa Solidario, que permite ao motorista adquirir uma isenção mediante o pagamento de uma taxa variável. E é justamente nessa variação que mora a inteligência do sistema.
O Pyco y Placa Solidario conta com um robusto sistema de fiscalização para garantir a plena adesão dos motoristas. Fonte: Prefeitura de Bogotá
Quem polui mais, paga mais
A taxa de isenção não é igual para todos. Veículos mais poluentes pagam valores mais altos. Carros registrados fora de Bogotá arcam com um acréscimo de 20%. E há ainda um multiplicador atrelado ao valor de mercado do veículo: quanto mais caro o carro, maior a contribuição do dono.
Para calcular o valor exato, o motorista acessa o site da Secretaria de Mobilidade local, onde um Simulador de Tarifa cruza o período desejado com as características do veículo: tipo de combustível, cilindrada, modelo e município de registro. Após o pagamento, ainda é obrigatório concluir um módulo de conscientização online. Só com a aprovação no curso, o direito a rodar com o veículo é, então, liberado. Quem quiser pode ainda fazer uma doação voluntária ao Pico y Placa Solidario em apoio a programas sociais ou ao sistema de reciclagem da cidade.
O simulador de tarifas da página oficial do Pico Y Solidario. Fonte: Prefeitura de Bogotá
O carro privado financia o ônibus
O impacto financeiro da introdução do novo sistema foi expressivo. Em pouco tempo, o Pico y Placa Solidario passou a injetar mais de US$ 100 milhões por ano no Fundo de Estabilização Tarifária (FET), cobrindo cerca de 15% do déficit do Sistema Integrado de Transporte Público (SITP) de Bogotá. O carro particular tornou-se, na prática, uma fonte de receita para o transporte coletivo.
Os dados comportamentais também chamam atenção. A proporção de domicílios com dois carros caiu de 17,8% em 2019 para 11,5% em 2023. E 95% das permissões vendidas são para uso de um único dia, sinal de que os motoristas recorrem à isenção apenas quando realmente precisam, e não como um salvo-conduto permanente.
O caso de Bogotá mostra que um rodízio pode ir muito além de desafogar o trânsito e melhorar a qualidade do ar. Com os incentivos certos, ele se torna um instrumento de equidade social e sustentabilidade urbana.
Referências: bogota.gov.co | picoyplacasolidario.movilidadbogota.gov.co | movilidadsolidariacol.info | medium.com | revistas.utadeo.edu.co | uitp.org | ambientebogota.gov.co | help.rentcars.com
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